Missa do Galo é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, publicado no livro Páginas Recolhidas em 1899.
Missa do Galo é um conto do escritor brasileiro Machado de Assis, publicado no livro Páginas Recolhidas em 1899.
Dividido entre o medo de desrespeitar Conceição e o desejo que sente por ela, Nogueira se revela confuso acerca dos acontecimentos daquela noite, não chegando nunca a saber as verdadeiras intenções da mulher.
Conceição era conhecida como “a santa”, alguém com “um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos”. Consciente das traições do marido, aparece aproveitar a noite da missa do galo e a ausência de Meneses para se aproximar de Nogueira, o adolescente que estava hospedado em sua casa.
No dia seguinte, o seu comportamento volta ao habitual, como se o encontro e a intimidade da noite anterior nunca tivessem acontecido. Depois da morte do marido, Conceição volta a casar.
Análise e interpretação do conto
Este é um conto narrado na primeira pessoa, no qual Nogueira recorda o seu breve encontro com Conceição, que deixou uma lembrança forte mas também a dúvida acerca do que houve entre ambos naquela noite.
Logo na primeira frase, “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.” o leitor é informado acerca da natureza críptica e misteriosa do encontro.
Tempo
A narração é retrospetiva, contando acontecimentos que tiveram lugar no passado. Não sabemos que idade o narrador tem no momento em que escreve, apenas que já é adulto e continua se questionando sobre as intenções de Conceição naquela noite.
A sua memória parece falhar em relação a vários detalhes do episódio, começando pela própria data, uma vez que refere que foi na véspera de Natal de "1861 ou 1862”.
Espaço
A ação decorre no Rio de Janeiro, lugar onde estava situada a Corte. Tudo o que nos é narrado acontece em casa de Meneses, mais especificamente na sala. A descrição aponta para uma casa burguesa, decorada com sofás, poltronas e canapés mas também dois quadros de figuras femininas, uma delas Cleópatra, que parecem conferir ao espaço um certo clima de lascívia que contrasta com a suposta pureza de Conceição.
É a própria mulher que chama a atenção para este fato, dizendo que "preferia duas imagens, duas santas" e que não acha próprio estarem "em casa de família". Assim, podemos interpretar os quadros enquanto símbolos do desejo de Conceição, reprimido pelas pressões da sociedade.
Conceição e Meneses: casamento e convenções sociais
O casal, que vivia com a sogra e duas escravas, acolheu Nogueira quando este se mudou para o Rio de Janeiro. A família vivia segundo "costumes velhos": "Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia.”.
Vivendo segundo princípios morais tradicionais e conservadores, comuns na época, o casal reproduzia comportamentos injustos e sexistas. Meneses tinha uma amante, com quem se encontrava semanalmente, e a esposa tinha que se resignar e aceitar a traição calada, para não provocar escândalo.
Sobre Meneses sabemos muito pouco, além das suas indiscrições com uma mulher separada. Sobre Conceição, sabemos que foi deixada sozinha na véspera de Natal, que o marido decidiu passar com a amante. Talvez pelo peso da data, ou por cansaço e revolta com a situação, ela decide se aproximar de Nogueira, embora o adultério não chegue a ser concretizado.
Confirma, no entanto, a frieza de seu casamento e a vontade implícita de se envolver com outro homem, que se verifica depois, quando Meneses morre de apoplexia e Conceição se casa com o seu escrevente juramentado.
Significado de "Missa do Galo": Machado de Assis e o Naturalismo
Neste conto, são visíveis as influências naturalistas: a preferência pelas descrições psicológicas em detrimento das físicas, a exploração da sexualidade e da psique humana, suas vontades escondidas e comportamentos que não são socialmente aceites.
Embora o conto trate, de alguma forma, o tema do adultério (não só de Meneses com a amante mas também de Conceição com Nogueira), na verdade, o único contato físico entre ambos foi um leve toque no ombro. Assim, não houve concretização do desejo que sentiam um pelo outro; o que é relevante aqui não é o que realmente aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.
Machado de Assis, no seu estilo bastante peculiar, contrapõe sagrado e profano, vontade e proibição, desejo carnal e compromisso moral de forma primorosa, tornando este texto de temática aparentemente simples (duas pessoas conversando, durante a noite) numa narrativa carregada de simbologia. Por tudo isto, "Missa do Galo" continua sendo um dos escritos mais célebres do autor.
Sua extensa obra constitui-se de nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. Machado de Assis é considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Este romance é posto ao lado de todas suas produções posteriores, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, ortodoxamente conhecidas como pertencentes a sua segunda fase, em que se notam traços de pessimismo e ironia, embora não haja rompimento de resíduos românticos. Dessa fase, os críticos destacam que suas melhores obras são as da Trilogia Realista.[1] Sua primeira fase literária é constituída de obras como Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, onde notam-se características herdadas do Romantismo, ou "convencionalismo", como prefere a crítica moderna.
Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e outros. Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.
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